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As primeiras pessoas que chegaram com sintomas de Covid-19, em março deste ano, tinham entre eles alguns pontos em comum. Os principais eram uma doença que poucos conheciam e o desamparo que vinha com ela – ainda não mudou tanto. Ter Covid-19 significa passar de 10 a 15 dias da sua vida imaginando se você será um dos que tem sorte e fica muito bem, sem complicações da doença, ou se você será um dos que vai passar pelo piores momentos da sua vida, sem saber se chegou ao fim dela. Aos poucos fomos descobrindo o que faz diferença. É preciso nos antecipar ao pior momento, monitorar os sintomas, porque assim podemos agir de modo a proteger a reserva de órgãos vitais como pulmão e coração. 

É preciso reconhecer quando uma pessoa com sintomas pode piorar, porque isso acontece muito rápido. E é fundamental acolher, porque ela está só – é preciso ficar só e proteger quem está perto. Algumas das funções do projeto foram essas. Uma equipe montada antecipar os problemas e agir para evitar as complicações. Somos também as parceiras e os parceiros que ouvem todo dia como estão indo as coisas do corpo e do que mais a pessoa atendida quiser falar. A ideia inicial era tentar, no meio da confusão que se armou ao longo desse ano, oferecer  uma base de apoio a quem poderia não ter suporte algum. . E o que aconteceu?

Diariamente, nossas colegas, agentes populares de saúde, ligam para as pessoas que nos são indicadas por estarem com sintoma de COVID-19 e precisando de apoio. Já nesse momento descobrimos o tamanho da dificuldade que nos espera. De todas as pessoas que acompanhamos, uma parcela pequena teve um exame de confirmação da doença realizado. A maior parte de quem acompanhamos não teve acesso ao teste que permitiria confirmar o diagnóstico. Portanto, acompanhamos pessoas com  febre, tosse, perda de olfato e paladar, diarreia , dificuldade para respirar. Em meio a uma enxurrada de informações diariamente saindo em toda a mídia, a maior parte das pessoas com sintomas, que temeu pela própria saúde e que foi orientada a se afastar de seus familiares, incluindo filhos pequenos, nem sabia o que tinha. 

Apesar da falta do diagnóstico, não faltaram receitas de medicamentos prescritos cujo efeito está entre duvidoso e prejudicial. Uma receita e boa sorte foi o máximo que muitos dos que buscaram auxílio do sistema de saúde receberam. No trabalho de monitoramento e acolhimento de pessoas com sintomas de Covid-19, vimos pessoas com dificuldade para conseguir medicação de uso contínuo para tratamento de doenças crônicas e pessoas com questões de saúde que vinham de muito antes do Covid-19 já sem solução. E, por fim, vivenciamos no dia-a-dia do nosso trabalho, o acompanhamento de pessoas que precisaram de internação hospitalar. O atendimento hospitalar não foi fácil durante a pandemia. Sabemos que muitos trabalharam duro para conseguir prover um atendimento de qualidade, mas também que é preciso melhorar. Em nossa rotina de ligações, algumas vezes tivemos que intervir em casos de pessoas com evidentes sinais de alerta de gravidade que não foram reconhecidos pela equipe de atendimento de urgência. Em mais de uma oportunidade precisamos manter conversas por telefone até com pessoas em atendimento nas urgências dos hospitais, para garantir o encaminhamento correto. 

No último mês, voltamos a ter mais calma. Menos pessoas com sintomas, menos dificuldade para vagas. Esperamos que as coisas sigam melhorando. Mas,  acima de tudo, esperamos que um dia, um trabalho como o nosso não tenha sentido nem espaço, porque todas e todos já terão o melhor atendimento e acolhimento possível. 

Gladys Villas Boas do Prado, médica infectologista, doutora em ciências médicas (epidemiologia) pela USP. Integra a equipe de infectologia do Hospital Sírio Libanês. Foi coordenadora de cuidado de pacientes de alta complexidade por 14 anos, dez deles em home care. Compôs a Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Instituto Central do Hospital das Clínicas da FMUSP de 2008 a 2015.

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