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“Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”
– Angela Davis

Saúdo primeiramente minhas ancestrais que abriram com seu sangue os caminhos para que eu pudesse passar. Saúdo também as minhas mais velhas e as mais novas que resistiram e resistem a violência racista e neoliberal todos dias, nas periferias desse país. Começo com a afirmação de Angela Davis, porque o Projeto Agentes Populares de Saúde e as iniciativas de suprir parte dos danos causados pela pandemia nas favelas de maneira muito objetiva, vem evidenciando o papel crucial das mulheres negras. Sim companheiros, quem organiza, cuida, alimenta, sofre e constrói mecanismos de vida para o povo preto são as “pretas de quebrada”. Uso então esse texto para exprimir a força das mulheres dentro desse movimento. Revertendo a aniquilação de nossos corpos e a invisibilidade de nossa intelectualidade, mostramos no dia a dia como é que se organiza uma comunidade pautada na luta, na cura e no afeto. Criamos nossas próprias tecnologias para dar conta de uma quebrada que estrategicamente é negligenciada pelo poder público, que só aparece em formato de tiro, soco na cara e “sumiço no camburão”. E quando o mundo inteiro se via revestido por uma pandemia de um vírus pouco conhecido, as pretas previram a devastação em seus territórios e mais uma vez se colocaram na linha de frente para proteger e minimizar os danos para o seu povo.

A frase “Nós por nós”, tem verdadeiro sentido, quando Luana Vieira acompanhada da Letícia Santos, de domingo a domingo alimentam as crianças no Jardim Miriam, aquilombando ainda mais a comunidade do Pagode na Disciplina. E em Poá Sandra do Santos, acolhe com doçura e tece redes dando suportes para as cidades vizinhas com formação e acompanhamento. É quando, a Fabíola de Carvalho, que na luta , acabou tendo covid-19, recém recuperada estava firme dizendo “Não mexa no nosso Projeto meninos e meninas de rua” e junto dela Lika, enfrentava jornada dupla de trabalho dando conta da Favela do Montanhão em SBC. Já aqui na Fazenda da Juta, a honra era minha, por aprender o que é fazer o “corre” na quebrada
com a Alessandra Candido. Tem, também as manas, que pouco a aparecem, mas são pilares dessa construção, Vanessa Nascimento, Bianca Santana e Mari Belmont, estão sempre ligadas procurando maneiras de fomentar esses e outros sonhos UNEafro, isso tudo com o suporte de Thais Santos, Dalva Santos, Patrícia Toni e Amanda Porto. Nesse Projeto, contamos ainda com Bruna Silveira, Gladys Prado, Amanda Arlete , Cátia Cipriano, Mayra Ribeiro e Juliana que compartilham seus saberes cuidando de nosso povo.

Faço questão de nomear uma a uma, para que não esquecemos, que a força desse movimento é preta, feminista e favelada. Que há muito mais de nós espalhadas pelos núcleos de base fomentando um projeto político antirracista, antimachista, antiLBTQIA+fóbico, anticapitalista e decolonial. E os aos nossos companheiros homens, unam-se a nós, pois não daremos nenhum passo retrocedendo.
Finalizo expressando minha imensa gratidão por nossas trocas. Poder reconhecer em vocês a “dororidade” que Vilma Piedade, apresenta como a cumplicidade entre mulheres negras, pois existe dores que só nós conseguimos reconhecer, me auxiliam a compreender que o reconhecimento na coletividade é cura. Gosto sempre de afirmar que Deus é uma mulher preta e vocês todos os dias me fazem acreditar nisso.

Fontes:
https://brasil.elpais.com/brasil/2017/07/27/politica/1501114503_610956.html
PIEDADE, Vilma. Dororidade. São Paulo: Editora Noz, 2017.
Flora Matos. Preta de Quebrada.Eletrocardiograma,São Paulo, 2017

 

Débora Dias tem 22 anos preta, favelada e sapatão, estudante de Ciências Sociais da UNIFESP, é educadora Popular e articuladora da UNEafro Brasil no Núcleo Ilda Martins (Fazenda da Juta-ZL) e no Projeto Agente Popular de Saúde. É artista e pesquisadora da Coletiva Emana ZL e do Coletivo InCorpo ZN. E Pré-co Candidata do Coletivo QUILOMBO PERIFÉRICO

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