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O filósofo jamaicano Charles Wade Mills afirma que toda pessoa branca, queira ela ou não, é beneficiária do racismo. Independentemente da sua vontade.

Como se pode constatar a afirmação no sistema de saúde, com o coronavírus?

O projeto Agentes Populares de Saúde da Uneafro, que apoia comunidades vulneráveis e periféricas no combate à pandemia, levanta dados que exemplificam bem essa questão: pessoas negras estão sendo menos testadas para covid-19 que pessoas brancas (dentro de uma mesma classe social): enquanto mais de 80% das pessoas brancas monitoradas pelo projeto por suspeita de coronavírus foram testadas ao passar em um serviço de saúde (confirmando ou descartando a infecção), apenas 37,5% das pessoas negras foram testadas, ou seja, 62,5% das pessoas negras não tiveram acesso a nenhum teste (continuando com o status de “caso suspeito”).

O projeto faz monitoramento remoto de casos suspeitos e, com respaldo de uma equipe médica e protocolos clínicos, as pessoas são encaminhadas a hospitais para serem internadas na vigência de sinais de gravidade. Nessa rotina, aponta outro dado alarmante: as pessoas negras têm mais dificuldade de acesso ao sistema de saúde e são as que mais estão expostas a descaso e negligência. No caso das pessoas monitoradas pelo projeto, as únicas que precisaram de internação por coronavírus e não tiveram problemas com seus hospitais de referência foram pessoas brancas. Todas as pessoas negras encaminhadas para internação, portanto, encontraram dificuldades. Felizmente, o projeto conseguiu dar seguimento para todos os casos, garantindo a internação em outros hospitais do SUS por meio da articulação da equipe médica voluntária e, em um caso bastante emblemático, a pessoa só conseguiu ser internada de acordo com a gravidade do caso (em uma unidade semi-intensiva) após o projeto encaminhá-la a um hospital privado, arcando com os custos da internação.

Esses dados corroboram informações já conhecidas: pessoas negras morrem muito mais por coronavírus do que pessoas brancas.

Tudo isso assusta, mas é importante dizer que dados de racismo no sistema de saúde de antes da pandemia já eram preocupantes. Tratando-se da assistência ao pré-natal e ao parto, por exemplo, as mulheres negras sofrem mais negligência e violência obstétrica. São elas que esperam por mais tempo para serem atendidas, têm menor tempo de consulta, são mais submetidas a procedimentos dolorosos sem anestesia. E vale ressaltar que 60% das mortes maternas por causas evitáveis ocorrem entre as mulheres negras. Essas violências têm se agravado com força nesse período.

Um estudo recente sobre o impacto desproporcional da covid-19 entre gestantes e puérperas no Brasil mostrou que a morte materna de mulheres negras pelo vírus é quase duas vezes que de mulheres brancas.

Mas absolutamente nada disso é culpa do vírus. O vírus realmente não tem preferência por nenhuma raça-cor (até porque a divisão racial não é biológica, e sim política e social). Isso também não acontece só quando os profissionais de saúde agem intencionalmente de forma racista (com insultos, agressões ou violências diretas contra as pessoas negras). O racismo estrutural e institucional, inclusive no sistema de saúde, beneficia as pessoas brancas e negligencia as pessoas negras.

“Bom, então se é um problema estrutural e institucional, nada pode ser feito.”

Isso também não é verdade. Ainda que, em muitos casos, seja um problema estrutural e institucional (quando também não acontece a intenção individual da violência), o racismo só pode ser perpetuado pela ação dos indivíduos. Então, a primeira coisa que precisa acontecer é que os profissionais de saúde criem consciência dessa situação.

Em busca dessa conscientização, há mais de dez anos já existe a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, uma estratégia criada em 2009 pelo Ministério de Saúde em diálogo com o movimento negro para a superação do racismo e a garantia de promoção da igualdade racial, desenvolvimento e fortalecimento da democracia. Porém, e ainda como parte dessa estrutura racista, é ainda uma política muito pouco implementada e disseminada. Muitos profissionais sequer conhecem essa política e outros tantos julgam que não é importante conhecê-la, apoiando-se no mito da democracia racial: “para quê essa política se somos todos iguais e devemos tratar a todas e todos da mesma forma?”. Pois é: exatamente porque não é isso o que acontece na prática.

A psicóloga e pesquisadora Maiara Benedito aponta em sua dissertação que, por se tratar de áreas compostas majoritariamente por profissionais brancos, as discussões e pesquisas sobre questões raciais são raras em áreas da saúde – como a medicina e a psicologia. Afirma ainda que a dificuldade em reconhecer privilégios dentro de uma estrutura social racista ou a crença de que o racismo é um problema exclusivo da população negra, impossibilita que esses indivíduos brancos reflitam sobre o papel que ocupam na sociedade e como contribuem para as desigualdades raciais. Charles W Mills também fala sobre isso, nomeando essa postura que resiste em encarar os fatos de “ignorância branca”: “imagine uma ignorância que resiste. […] uma ignorância que é ativa, dinâmica, que se recusa a desaparecer tranquilamente – de modo algum confinada ao iletrado, ao sem educação, mas propagada nos níveis mais altos da terra, de fato se apresentando despudoradamente como conhecimento.”

Apesar de todas as dificuldades e resistências, o mesmo filósofo jamaicano também afirma que nem toda pessoa branca é, necessariamente, signatária do racismo e do contrato racial que ele impõe. Se nem toda pessoa branca é signatária, está aberta a possibilidade de alianças na construção de um outro tipo de sociedade, em que um outro tipo de contrato seja possível e onde todas as pessoas podem desfrutar igualitariamente das oportunidades gestadas.

Então, cara branquitude da qual eu que vos escrevo também faço parte e reconheço que sou beneficiária: é fundamental sair dessa negação com urgência. Precisamos nos responsabilizar pelas mudanças estruturais, pois somos nós que perpetuamos o racismo. Um racismo que, como bem pauta Maiara Benedito, é sinônimo expresso de sofrimento e atravessa absolutamente todos os aspectos da vida das pessoas negras, direta ou indiretamente.

É com o amparo da nossa negação que ocorre o genocídio do povo preto e periférico todos os dias, inclusive (e nesse momento de pandemia principalmente) pelas nossas ações “distraídas e despretensiosas” (eufemismo para “racistas”) dentro do sistema de saúde. É preciso avançar com urgência nos estágios do racismo apontados pela escritora, psicóloga e artista portuguesa Grada Kilomba: negação, culpa, vergonha, reconhecimento e reparação.

Precisamos reparar todas essas atrocidades cometidas. No caso dos profissionais de saúde, então, trata-se de uma questão de emergência absoluta. É necessário ter consciência das práticas cotidianas e constantemente se questionar, por exemplo: será que estou indicando menos testes para casos suspeitos de coronavírus na população negra? Será que estou dando a mesma atenção para uma pessoa negra que daria a uma pessoa branca? Como diz a escritora, jornalista e ativista brasileira Bianca Santana no livro Quando Me Descobri Negra: “Não precisa contar pra ninguém. Só tente não repetir”.

Bruna Silveira, médica de família e comunidade, terapeuta de medicina tradicional chinesa e de homeopatia. É coordenadora de saúde do projeto Agentes Populares de Saúde da Uneafro Brasil, supervisora do Programa Mais Médicos no Vale do Ribeira – SP, trabalhou na assistência e ensino da estratégia de Saúde da Família em diferentes regiões da grande São Paulo. Produz o podcast Universo Pitaia – Saúde e Feminino.

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